segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Gabriel Fuentes e CAMELOT TRANSLATIONS




Olá, leitor do DGDC News. Eu sou MasatoCollector e você deve se lembrar de mim em videos como COMEÇOU A MACACADA, NUTTELA! e SAVE NA MACACA.

Hoje com muito orgulho, apresento esta entrevista cedida pelo meu amigo Gabriel Fuentes, conhecido como Gabo ou @Miracleman82.

Profissional na área de tradução de games, este simpático argentino que mora no Brasil vai falar um pouco sobre seu trabalho e um pouco de sua história com os vídeo-games.


- Olá Gabo, tudo bem? É um prazer poder entrevistar um bom amigo como você.

Olá, irmão, o prazer é inteiramente meu e é uma honra para mim participar do seu blog, me desculpa pelo meu Português bem basicão.


- Antes de começar a falar do seu trabalho, fale um pouco de você e de como e quando começou a se interessar por videogames.

Eu acho que foi quando meu pai me levou para um salão de fliperamas quando eu tinha uns 5 anos (1987), eu lembro que nem conseguia chegar aos controles da máquina e ele me agarrou nos braços para jogar Pac-Man.

Esse foi o primeiro jogo que joguei e aí eu me apaixonei por isso. Cerca de dois anos depois, e totalmente de surpresa, minha mãe me deu um EDU 2600 que era um clone argentino do Atari 2600, e depois disso não parei de jogar mais.

Infelizmente, na América do Sul, os preços muitas vezes não permitiam que a gente jogasse tudo o que queria.


- Quais são seus jogos favoritos?

Eu tenho muitos, mas se eu tivesse que fazer uma lista com os que eu mais amo eu diria a você que eles são: Final Fight, Sonic, Little Nemo, Street Fighter 2, Monkey Island, Streets of Rage 2, Full Throttle, Rocket Knight Adventures, Tenchu, Virtua Fighter 2 e Batman Arkham Asylum.


- E os consoles favoritos?

Eu sempre fui um soldado fiel da Sega (rsrsrsrs), então eu diria que os consoles que eu mais amo são o Mega Drive e o Saturn.

Lembro-me absolutamente de tudo sobre o dia em que os comprei, os lugares em que procurava jogos, até os preços. Também tenho muito apreço pelo meu PS Vita e os 3 primeiros Playstations porque foi preciso muito esforço para comprá-las.


- Agora vamos ao "trampo". Aonde e quando você começou a trabalhar com tradução/games?

Comecei a trabalhar com tradução há cerca de 5 anos, quando terminei a universidade, embora não trabalhasse em período integral desde que tinha outro emprego.

Particularmente com videogames há dois anos, enquanto estudava um mestrado nesta especialização a distância em uma universidade na Espanha.


- Qual é a rotina de trabalho de um tradutor de games?

A rotina depende muito do tipo de cliente, por exemplo, se você está trabalhando para um cliente direto, geralmente os horários são um pouco mais relaxados e as sugestões que você pode fazer são maiores.

Quando você trabalha para outra agência que realiza a localização para vários idiomas, trabalha com uma rotina muito mais rigorosa e, em geral, os tradutores já recebem "um guia de estilo" sobre como traduzir determinados termos ou expressões.


- Quais ferramentas são usadas para se traduzir um jogo?

Ao trabalhar em grandes projetos para vários idiomas, os tradutores de cada idioma usam memórias de tradução, geralmente hospedadas em um servidor ao qual todos têm acesso.

Essas memórias de tradução são uma espécie de bancos de dados de tradução que mantêm as opções linguísticas e impedem que você traduza manualmente números (que geralmente produzem erros), expressões repetidas várias vezes, etc.

Em projetos menores, o desenvolvedor geralmente compartilha um arquivo do Excel com as linhas de texto (chamadas text strings) que o jogo possui, seja nos diálogos, na história do jogo e até nos diferentes menus e opções.

Quanto às ferramentas de tradução assistida mais populares (que chamamos de CAT Tools), as mais comuns são MemoQ, Trados e Passolo, mas existem outras como Catalyst, WordFast, etc. Pra a revisão, outras, como o XBench, também são usadas.


- Quanto tempo se leva para traduzir um jogo, por exemplo, um Triple A e um indie?

Independentemente das características do jogo, o tempo varia muito devido à quantidade de texto que eles têm. A tradução para o espanhol latino-americano, por exemplo, do Diablo 3 foi feita aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, e um amigo meu que trabalhou nela passou quatro meses só com esse projeto.

Outros títulos que não têm tanta história ou tantas opções são muito mais rápidos, até mesmo dias, sempre depende da quantidade de palavras que o título possui.

Em alguns casos, você tem que esperar que os tradutores de outras línguas terminem sua tarefa para começar com a sua isso acontece muito com os jogos japoneses que geralmente traduzem-se dessa língua para o inglês primeiro e depois para o resto.


- Piadas e costumes regionais são traduzidos ao pé da letra ou tem liberdade criativa na tradução (conhecido como localização)?

Em geral, você tem total liberdade sobre essas coisas. O conceito de localização é adaptar todo o produto ao mercado para o qual ele é direcionado, de modo que até cores e outros aspectos não linguísticos devem ser adaptados.

No passado a localização dos jogos para o mercado do continente das Américas era restrita por certas políticas das empresas, sendo a Nintendo uma das que tinha mais regras, hoje é muito mais livre.


- Tradutores de jogos têm o nome registrado nos créditos dos jogos?

Não, embora isso esteja mudando. Em geral, apenas o gerente de localização ou a agência responsável aparece nos créditos, mas pouco a pouco, alguns títulos já incluem o nome dos tradutores / localizadores nos créditos. O mesmo vale para filmes, séries e livros.


- Você já conheceu algum desenvolvedor de jogos famoso ou visitou alguma grande desenvolvedora por causa desta profissão?

Não, eu nunca tive essa possibilidade, eu só conheci a sede da Konami em Las Vegas, mas quase por acaso e amei a experiência, embora estes não sejam os melhores dias da empresa. Também tive a sorte de trabalhar perto de pessoas da Ubisoft nos Estados Unidos e foi uma experiência muito agradável.


- Quais os jogos que você mais gostou de trabalhar e quais deram mais problemas para traduzir e por quê?

O Jump Force foi, sem dúvida, um dos projetos que mais gostei por causa de sua relação com o anime.

Eu lembro que quando o projeto veio para mim (embora eu não soubesse o nome do título porque eles chegaram com uma espécie de código) eu vi as linhas do diálogo entre Seiya e Shiryu e liguei para minha mãe e disse: "Você se lembra de todas as horas que eu gastei assistindo Cavaleiros do Zodíaco? Bem, eles vão me pagar para saber disso agora."

A equipe desse projeto foi sensacional, tanto na América Latina quanto na Espanha.

Ironicamente, embora eu saiba até o final do jogo, é um título que nunca joguei até hoje. Estou esperando que apareça em alguma “Steamsale”.

Um projeto que não era de videogames, mas de software que me custou muito trabalho foi sobre sinalização ferroviária. Foi muito preciso, as fontes de informação eram muito escassas e os tempos que estávamos lidando eram muito curtos. Felizmente nós entregamos sem problemas.


- Neste ano (2019) você se mudou para o Brasil, isso afetou muito sua rotina de trabalho?

Não muito, porque ainda tenho meus clientes na Argentina e felizmente é um tipo de trabalho que pode ser feito de qualquer lugar.

A questão do pagamento muda um pouco porque eu tenho que fazer transferências da Argentina para o Brasil, mas a rotina em si não mudou. O que eu sinto falta é ir a congressos e conferências.
 

- Na empresa que você trabalha (CAMELOT TRANSLASTIONS), para quais plataformas vocês oferecem seus serviços e se são focado só em games ou outros produtos?

Na CAMELOT, nos especializamos em localização de software e videogames, mas também realizamos traduções técnicas e jurídicas.

A ideia é expandir para outros campos no futuro, mas no momento só focamos nessas áreas com o objetivo de fornecer o melhor atendimento ao cliente, independentemente do tamanho do seu projeto


- Você acha que as empresas de jogos hoje em dia estão mais preocupadas com a tradução e localização comparado com os anos 80/90 e 2000?

Sem sombra de dúvida. Quando eu era criança, era muito difícil encontrar um jogo em espanhol, por exemplo.

Aqui no Brasil, os brasileiros tiveram a sorte de ter uma empresa como a TecToy que fez um excelente trabalho ao localizar muitos títulos, mas não havia nada parecido no mercado de língua espanhola.

Hoje a maioria dos títulos vem em diferentes variantes de espanhol e português. Empresas como a Microsoft perceberam o potencial do mercado sul-americano, que pode não ser tão rico quanto europeu, asiático ou americano, mas certamente consome muito e tem uma grande paixão por videogames.


- Quais dicas você daria para uma pessoa interessada no ramo de tradução?

Eu acho que a característica mais importante que um tradutor tem que ter é a curiosidade, sempre querendo saber mais, se interessando pelas coisas.

Muitas pessoas me perguntam se é necessário ser um amante de videogame para poder localizar, digo não, mas é claro que ajuda muito.

Conhecer as histórias, os personagens, é vital para fazer um bom trabalho, e embora existam coisas que podem não ser conhecidas de antemão, você deve sempre procurar uma boa documentação, aprender, não ter medo de perguntar, e o mais importante: estudar e não ter medo de estar errado.


- E para finalizar deixo este espaço reservado para suas considerações finais, fique a vontade para digitar o que quiser e novamente agradeço pelo seu tempo e pela excelente entrevista. Muito obrigado!

Queria agradecê-lo muito por este espaço para divulgar essa linda profissão e aproveitar pra reconhecer o trabalho que você sempre faz para os videogames, por lembrar tempos melhores e por sempre transmitir a paixão pelos videogames para outras pessoas. Você sabe que sempre conta com esse argentino aqui. Saudações a todos.



Abaixo você pode conferir o Dreamcast que ganhei de presente do Gabriel Fuentes e o controle arcade USB que mandei para ele.




Nenhum comentário:

Postar um comentário