Por Jonas F. Cabral
Foto: Divulgação/Amazon
A HQ começa com um quadro de página inteira, com Scott Free, o Senhor Milagre,
olhando para o leitor, diretamente para seus olhos e além deles, mas a
historia só começa realmente ao virar a página e nos deparamos com uma cena
incomum ao que estamos acostumados nos quadrinhos de super-heróis, mesmo com
toda a violência que temos acompanhado em títulos recentes, existem coisas que
dificilmente imaginaríamos um herói fazendo, nessa cena de página dupla vemos
Scott Free sentado no chão de um banheiro após cortar os pulsos em uma
tentativa de suicídio e é a partir daí que a historia se desenrola e outras
coisas que não imaginávamos serem possíveis, acontecerem.
Poucos tempo depois, durante um programa de entrevistas, o Senhor Milagre
afirma que tudo não passou de um truque, que suas fugas estavam ficando muito
fáceis e ele estava sempre atrás de novos desafios para apresentar ao público,
queria escapar de algo que ninguém escapava, ele havia decidido escapar da
morte, enquanto isso, depois de muito tempo, Darkseid finalmente consegue a
Equação Anti-Vida e reinicia a guerra milenar entre Apokolips e Nova Gênese.
Izaya, O Pai Celestial é assassinado e agora Órion, seu filho adotivo, é o
novo Pai Celestial e líder de Nova Gênese, ele convoca o Senhor Milagre e
Grande Barda como seus generais na ofensiva contra Apokolips, que agora são
forçados a dividir seu tempo entre a guerra e suas vidas na Terra, mas nem
tudo é o que parece, pode finalmente o Senhor Milagre ter encontrado uma
armadilha tão complexa que nem mesmo ele pode escapar?
Pra entender essa HQ não é necessário ter uma bagagem de leitura de
quadrinhos, mas é interessante conhecer quem é o Senhor Milagre e os Novos
Deuses. Os Novos Deuses são uma raça extremamente superior, habitantes dos
planetas gêmeos Apokolips e Nova Gênese, eles estão em guerra a milhares de
anos e temendo uma aniquilação mútua fizeram uma trégua onde seus lideres
trocaram seus filhos como reféns para selar a paz, Darkseid ofereceu Órion e
Izaya, Scott Free. Órion foi criado como filho legítimo do Pai Celestial, mas
Scott foi entregue para ser torturado diariamente pela Vovó Bondade, junto com
todos os outros órfãos de Apokolips, ele sempre conseguia sair dos aparelhos
de tortura da Vovó Bondade e tentava fugir do planeta, mas sempre acabava
capturado novamente. Em uma dessas tentativas de fuga, ele conhece sua futura
esposa, Grande Barda, líder das Fúrias Femininas, guarda de elite de Darkseid
e também uma das crianças da Vovó Bondade. Eles se apaixonam e com a ajuda de
um espião de Nova Gênese, conseguem fugir pra Terra e com o tempo entram pra
Liga da Justiça e começam uma vida de estrelato no show business em
apresentações de números de fugas aparentemente impossíveis.
Outra coisa importante é perceber como tudo ali pode ser uma grande metáfora,
então é necessário prestar atenção em todos os detalhes. Tom King tem o hábito
de criar histórias onde nada aparece por acaso, tudo tem um ou mais
significados mesmo que não fique claro num primeiro momento, a coisa acaba se
revelando ao longo da leitura, ele sempre cria uma história que merece ser
lida mais de uma vez, uma nova leitura acaba revelando novas nuances e
percebemos o real significado que num primeiro olhar parecem trivialidades,
que estavam ali como parte do cenário apenas pra preencher algum espaço no
quadrinho. Com o desenrolar da história acabamos percebendo que a vida do
Senhor Milagre, durante a HQ, é a representação de como ele deseja fugir da
realidade. Seus momentos mais intensos perturbam esse mundo através das
oscilações que aparecem nas cenas, os painéis “Darkseid é” podem ser
interpretados como o aumento da ansiedade e angústia do personagem e o foco
não é a guerra de Apokolips ou os Novos Deuses e sim como os traumas marcam o
dia-a-dia das pessoas que convivem com ansiedade e depressão, o quadrinho é
focado na humanidade do personagem, em seus dramas, inseguranças e dúvidas.
Além desse significado mais profundo, toda a história é também uma grande
homenagem ao "centenár100" de Jack Kirby, criador do Quarto Mundo e todos
os seus personagens ainda na Marvel, mas que só viram a luz do dia após
sua ida pra DC Comics, no inicio dos anos 1970. Existem vários diálogos
e referências ao seu trabalho e criações em ambas as editoras, suas diferenças
e parcerias com Stan Lee e pequenos acréscimos ao seu universo já tão vasto.
As narrações que aparecem no início e no final de cada capítulo na verdade são
transcrições das narrações que aparecem nos primeiros quadrinhos do Senhor
Milagre escritos por Jack Kirby, nos mesmos capítulos correspondentes em ambas
as épocas. O atual relações públicas do Senhor Milagre, Funky Flashman, foi
criado por Jack Kirby como uma paródia de Stan Lee e ao seu modo excêntrico de
agir e falar, durante uma passagem é feita uma clara referência em como
funcionava sua parceria e a criação de Galactus e Surfista Prateado. Scott
Free e Grande Barda visitam a calçada da fama com a marca e a assinatura de
Jack Kirby, na verdade apenas Stan Lee tem suas palmas na calçada da fama, mas
Tom King resolveu corrigir essa injustiça, foram feitas diversas outras
homenagens que apenas os olhos mais atentos vão perceber, como as primeiras
capas do Senhor Milagre em pôsteres nas paredes de seu apartamento em Los
Angeles.
Tom King fez duas grandes contribuições ao universo "kirbyano" neste
quadrinho, ele revelou que Scott Free não conhece o próprio nome, por sempre
conseguir escapar de todos os aparelhos de tortura da Vovó Bondade e tentar
fugir de Apokolips, ela o chamava de Scott Free (nota do editor: a
expressão inglesa get off scot-free significa sair impune, se safar),
mas por ter sido entregue a Darkseid ainda bebê, o personagem não se lembra do
nome que recebeu do Pai Celestial e nunca teve coragem de perguntar. A outra
contribuição de Tom King também é sobre um nome, ao visitarem o túmulo de
Oberon, que por muito tempo foi braço direito do Senhor Milagre e acabou
falecendo antes do inicio da HQ sem nunca ter seu sobrenome revelado desde sua
criação, aparece em sua lápide Oberon Kurtzberg, homenagem ao verdadeiro nome
de Jack Kirby que é Jacob Kurtzberg.
Mesmo sendo feito em comemoração aos cem anos de Jack Kirby, infelizmente a HQ
não possui extras relevantes. Na edição nacional há as capas de cada edição
publicada nos EUA e as ilustrações das capas variantes.
O traço de Mitch Gerads não foge do padrão super-herói da DC Comics, o
diferencial da arte e colorização do desenhista está na narrativa nos momentos
de tensão e confusão do personagem Scott Free, pois nessas situações há a
simulação das oscilações de televisões antigas e o uso de cores diferentes.
Para situar o leitor em que região a história se passa, o colorista optou pelo
uso predominante de uma cor, tons de vermelho para Apokolips e tons de amarelo
para Nova Gênese. As cores também servem para indicar o estado de espírito de
Scott Free, vermelho é raiva e amarelo é apatia, em determinada cena em que
Senhor Milagre e Grande Barda estão transando, o fundo é azul, o azul é uma
cor associada a afeto, amor entre outras coisas.
Um detalhe curioso na arte de Mitch Gerads é a divisão dos quadrinhos em cada
página, são nove quadros de três linhas por três colunas e a calha, o espaço
de um quadrinho para o outro, assemelha-se a uma grade, pra reforçar a ideia
de que o Senhor Milagre está querendo escapar dessa prisão. Dois outros
momentos muito bons na narrativa visual que podemos ressaltar estão nas cenas
de ação, onde os personagens se movimentam pelos quadros enquanto o cenário
permanece estático, quando o Senhor Milagre e Grande Barda tentam invadir Nova
Gênese, o topo de cada quadrinho simula o teto descendo e gradativamente, a
altura de cada quadrinho na página vai diminuindo enquanto a Grande Barda
tenta segurá-lo.
Quadrinho indicado para todos os fãs de HQs, excetuando as crianças por conta
de algumas nuances que a maioria do público infantil não entenderia, no caso a
depressão e as referências à Jack Kirby, também há cenas de violência. Cabe
ressaltar que a história em quadrinho possui uma forte carga depressiva,
apesar de falar da superação do personagem.
Senhor Milagre é realmente um quadrinho primoroso, sabendo abordar com
sutileza assuntos tão complexos como a depressão e ansiedade, sabendo fazer
uma homenagem que honrou realmente a memória e o legado do mestre Jack Kirby e
mostrou que um herói, um deus, também está sujeito aos problemas do homem
comum. Recomendo imensamente essa leitura.
Roteiro: Tom King
Arte e Cores: Mitch Gerads
Capas: Nick Derington
Letrista: Fernando Chakur
Tradutor: Paulo H. Cecconi
Editor original: Jamie S. Rich
Publicação Original: Mensal entre Out/17 e Nov/18
Publicação Nacional: Compilados de 6 edições em Dez/18 e Jun/19
Número de páginas: 152/156
Formato: 17 x 26 cm
Preço de capa: R$ 23,90/24,90

